Introdução


     A sociedade contemporânea é inegavelmente moldada pela tecnologia digital. Nesse cenário, a educação não pode mais se limitar ao uso instrumental de softwares, mas deve capacitar o estudante a compreender, criticar e criar com a tecnologia. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) formaliza essa necessidade ao estabelecer a Cultura Digital como uma de suas dez competências gerais e, mais especificamente, ao prever o desenvolvimento do Pensamento Computacional (BRASIL, 2018).


     O Pensamento Computacional (PC) é uma habilidade cognitiva que permite formular problemas e suas soluções de forma que possam ser executadas por um ser humano ou máquina (WING, 2006). Sua inclusão na BNCC representa um marco, deslocando o foco da educação tecnológica do uso passivo para a criação e o desenvolvimento ativo de soluções.

     A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), instituída pela Lei nº 9.394/96 (LDB), define o conjunto de aprendizagens essenciais a que todos os estudantes brasileiros têm direito (Brasil, 2017). O avanço tecnológico impôs a necessidade de aprofundamento da Competência Geral 5 – Cultura Digital – que versa sobre a utilização crítica, significativa, reflexiva e ética das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC).


   O Parecer CNE/CEB nº 2/2022 (e a Resolução CNE/CEB nº 1/2022) instituiu a inclusão da Computação na Educação Básica como componente curricular obrigatório, complementando a BNCC. Esta inclusão garante que a formação dos estudantes vá além do mero uso instrumental da tecnologia, focando na compreensão dos seus fundamentos, seus impactos e na capacidade de criar soluções digitais.

Fundamentação Conceitual do Pensamento Computacional (PC)


     O conceito de Pensamento Computacional foi popularizado por Jeannette Wing (2006), que o definiu como um conjunto de habilidades mentais que permeiam diversas áreas do conhecimento. O PC não se restringe à programação, mas é uma abordagem para a resolução de problemas baseada em quatro pilares fundamentais:


  • Decomposição: Quebrar um problema complexo em partes menores e mais gerenciáveis.


  • Reconhecimento de Padrões: Identificar semelhanças, tendências ou regularidades que se repetem.


  • Abstração: Focar nas informações essenciais do problema, ignorando detalhes irrelevantes.


  • Algoritmos: Desenvolver uma sequência finita de passos claros e ordenados para solucionar o problema

O porquê da BNCC de Computação?

         

        Há muito tempo vem se falando da importância do uso das tecnologias digitais no dia a dia do fazer pedagógico, mas por quê? Confira alguns dos principais motivos:


Imgem de www.cursos.fundacaotellescom.org

          O interesse pela área de Informática Educativa, temática da Computação, emerge a partir de 1967 com a criação da linguagem de programação Logo, liderada por Seymour Papert. Com isso, em vários lugares do mundo, começou a discussão sobre como introduzir a computação na Educação Básica.


Estratégias Metodológicas e Aplicação na Sala de Aula


     O Pensamento Computacional pode ser desenvolvido com o uso de Metodologias Ativas e recursos de tecnologia.


  • Programação Desplugada (Unplugged): Atividades realizadas sem o uso de computadores (ex: jogos de tabuleiro, desafios com cartas ou objetos) para ensinar os conceitos de algoritmo e decomposição de forma lúdica. Esta abordagem é fundamental para o início do processo, conforme defendido por CRAWFORD (2018).


  • Robótica Educacional e Programação: Utilização de plataformas como Scratch, Arduino ou kits de robótica para que os alunos apliquem o raciocínio algorítmico na prática, criando seus próprios projetos e soluções (PAPERT, 1980).


  • Transversalidade: Aplicar o PC em outras disciplinas. Em História, criar um fluxograma (algoritmo) de um evento histórico; em Ciências, decompor um fenômeno natural em suas etapas; em Arte, criar padrões de repetição digitalmente.


     O professor, neste contexto, atua como mediador, estimulando o aluno a testar, errar e iterar sobre suas soluções, reforçando a mentalidade de engenharia.

Conclusão: O Pensamento Computacional como Competência para a Vida


     A inclusão do Pensamento Computacional na BNCC é um avanço estratégico que alinha a educação brasileira às demandas globais. Mais do que preparar futuros programadores, esta abordagem visa equipar todos os estudantes com habilidades essenciais para a tomada de decisões, o raciocínio lógico e a resolução de problemas complexos em qualquer área de atuação. Ao desenvolver o PC, a escola garante que o aluno se torne um agente ativo e crítico na sociedade digital, dominando a tecnologia em vez de ser dominado por ela.

Referências Bibliográficas


  • BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018. (Documento oficial para fundamentação das competências e PC).


  • CRAWFORD, A. Teaching Computational Thinking with Unplugged Activities. TechTrends, v. 62, n. 4, p. 347–353, 2018. (Fundamentação sobre a programação desplugada).


  • PAPERT, S. Mindstorms: Children, Computers, and Powerful Ideas. New York: Basic Books, 1980. (Trabalho seminal sobre as crianças como construtoras de conhecimento através da programação).


  • VALENTE, J. A. Pensamento Computacional e a Formação de Professores. In: Revista Pátio. Porto Alegre: Penso, 2017. (Análise sobre a formação de professores e o PC no contexto brasileiro).


  • WING, J. M. Computational Thinking. Communications of the ACM, v. 49, n. 3, p. 33-35, 2006. (Artigo fundamental que popularizou o conceito de Pensamento Computacional).

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